O poeta no tempo
viajarei nos dedos esguios
viajarei nos ventos nas nuvens
no pó nos caminhos
das águas retornarei as fontes
serei de novo a oculta semente
que espera o tempo de ser ave
passarei por baixo por dentro
por cima dos móveis das casas
dos ramos dos telhados
viajarei num raio de luz que nasce
naquela estrela onde toca o meu
dedo erecto
deixarei minha casa minha família
meus amigos e inimigos que seguirão
seu caminho e um momento olharáo
estáticos a minha partida como se
fosse talvez inesperada deixarei
minha face meus versos e este
desejo de vê los ainda um dia
a dar espigas
viajarei de graça para quê tirar
bilhete não haverá mais legalidade
ou ilegalidade
viajarei no estribo do tempo sob as
suas asas eternas absolutas
não haverá mais domingo nem
segunda feira
abolerei o calendário
faltarei ao emprego
pouco me importa
ser despedido
desertarei do quartel
não mais cravar ei
rebites a chapa dos
navios que nunca
me levaram a parte
nenhuma
irei nas águas do tempo
assíduo e inviolável
curva de onda no eter5
aí estarei
perfume e cio de pólen
aí estarei
glóbulo rubro viajante
nas artérias futuras
aí estarei
e nos bicos dos seios
que sugar ei ambíguo
porém cheio de todas
as possibilidades
aqui granulo
além molécula
célula átomo
de ferro
átomo cálcio
oxigénio
enxofre
cinza
vitamina sem
cor
acção reacção
fluxo e refluxo
a luz e a sua
sombra
o grito e o
seu eco indestrutível
e viajante e não turista
raio de luz viajando
entre os olhares
cruzando se no
amor ou no ódio
não terei olhos
mas estarei nos
olhos
não terei braço
estarei nos braços
não terei face
nem sonhos
esperanças
alegrias
cotribuicoes a pagar
ódios mais poemas
a compor
gritos raivas palavras
de amor
mas estarei na face
nos sonhos nos poemas
no amplexo
não terei ossos mas
estarei na seiva
no fluir das águas
e dos sonhos
agora um pedaço
de terra nas minhas
mãos e uma semente
de fava ou eucalipto no
meio dela ou um espermatozóide
de vibratil cauda

Comentários
Enviar um comentário