Infância

a  Ana

eu vim do sul
minha cidade longínqua
mas aqui tão nítida

indica tropical
ó minha cidade
do sul

minha cidade natal
a beira mar
com avenidas e palmares

eu vejo o vulto do teu corpo
a estender se vivo sensual

sobre o planalto verde e vermelho
a espreguiçar se ao sol

inflamado como uma crioula nua

minha  casa de tijolo na maxaquene
coberta de zinco pintado a zarcao
com um jardim em volta sempre em
flor e uma laranjeira e uma árvore de
papaia minha casa de menino

ó minha cidade longínqua mas aqui tão
nítida e pressente

minha cidade do sul que é do bibe às flores
costurado por minha mãe que tão bem ficava

que é dos meus brinquedos
que é das minhas paisagens
ó minha cidade do sul

que é do menino que fui
onde estão os meus gritos
minha claridade

do meu cão perdigueiro
que te chamava Breno

oferecido pelo meu padrinho
que te baptizou assim com
um nome tão arrevesado
dizendo que era o nome de um
grande homem

meu cão meu amigo correndo
a meu lado em grandes explorações
por carreiros perdidos no meio do
capim mais alto que nós meu camarada
de todas as horas alegre e obidiente

saltando em minha volta os dois em busca
do mundo que era nosso

minhas  largas avenidas  abertas
alcatroadas onde os negros corriam
em patins

com árvores em paradas sombreando
os passeios floridas e confortadoras

meus ónibus a caminho da baixa
meus ónibus verdes e amarelos
com zonas baratinhas

minhas matines no Varieta as quintas
e domingos com os meus amigos o
Luis e o Eduardo e a aventura  do TOm
Mix e as botas cambas de Charlot ó
minhas matines cheias de alvoroço
infantil

ó minha noite maravilhosa
que vinhas e te despias e
metias comigo na cama

e eras uma negra cheia de
mistério

e eu não tinha nenhum medo
tudo era extraordinário mas
natural

agasalhava em ti o meu corpo
de menino e os sonhos que eu
tinha eram cheios de claridade

súbito as vezes acordava aos ecos
lá de fora de medonhas trevoadas
de chuva e de vento assarapantando
a minha casa que estremecia e as árvores
e os pássaros que gritavam

mas tu boa negra voltavas a acariciar me
de manso e eu aninhava meu corpo pequenino
entre as dunas dos teus seios quentes e voltava aos
meus sonhos de claridade

minha boa negra ó minha noite tropical com a lua
lá fora a enflorar os palmares e o teu aconchego
incensado de mistérios os meus sonhos de menino

ah minha noite acolhedora e despida mai los teus
maravilhosos brinquedos e as dunas macias com
que brincava e o teu olhar afável de escrava e o
mistério do teu corpo negro que era toda uma claridade

que sem pecado vinhas e te despias e metias comigo na
cama ah minha negra submissa e envolvente que sem pecado
vinhas e te despias e metias comigo na cama quando eu
morav na maxaquene

ó minha noite maravilhosa e pura
aí que é feito do teu menino

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